Risco jurídico pode encarecer o crédito no agro

Resumo rápido: Risco jurídico no Brasil pode elevar juros e reduzir a oferta de crédito para o agronegócio, segundo entrevista de Valdo Silveira (LEME) à CNN Brasil O agro acumulou 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025 (alta de 56,4%) e 474 no 1º trimestre de 2026 Bancos podem exigir mais garantias, reduzir limites e encarecer financiamentos diante da falta de previsibilidade judicial O Judiciário brasileiro encerrou 2025 com 75,5 milhões de processos em tramitação, o que afeta o tempo de recuperação de dívidas O risco jurídico pode encarecer o crédito no agro porque a insegurança sobre decisões judiciais faz bancos e credores recalcularem o custo das operações. Quando a previsibilidade de recuperação de uma dívida diminui, o setor financeiro responde com juros maiores, limites menores e exigência de mais garantias para compensar a incerteza. Neste artigo, analisamos como esse cenário afeta produtores rurais, quais dados mostram a gravidade da situação e o que credores podem fazer para proteger suas operações. Como a insegurança jurídica encarece o crédito rural A insegurança jurídica encarece o crédito rural porque bancos e instituições financeiras precificam o risco de recuperação ao conceder financiamentos. Se decisões judiciais se tornam imprevisíveis, o custo de emprestar aumenta proporcionalmente, mesmo para produtores adimplentes. Em entrevista à CNN Brasil, Valdo Silveira, CEO da LEME Inteligência Forense, explicou que a preocupação não está apenas na existência de patrimônio do devedor. A questão central é a previsibilidade de quanto tempo e quanto dinheiro serão necessários para transformar bens em recursos destinados ao pagamento do débito. Na prática, isso significa que um banco pode exigir mais garantias, reduzir o limite disponível ou cobrar mais pela operação para compensar um risco maior de recuperação. E o impacto aparece antes mesmo de qualquer nova inadimplência: a mudança na percepção de risco já é suficiente para alterar as condições dos financiamentos seguintes. Por que o agronegócio é o setor mais vulnerável O agronegócio é particularmente sensível ao risco jurídico por uma combinação de fatores: alta dependência de crédito, ciclos longos de produção e exposição a variáveis externas. Produtores financiam safras hoje para colher meses depois, o que torna qualquer encarecimento do crédito um impacto direto na operação. O setor depende fortemente de financiamentos para custear ciclos de produção, compra de máquinas, aquisição de terras e outras atividades. Ao mesmo tempo, produtores estão expostos a fatores como clima, preços das commodities e aumento dos custos de produção. A crise institucional não é a causa da inadimplência do setor, que já enfrenta juros elevados, custos de produção, volatilidade das commodities e eventos climáticos. O problema, como destacou Silveira na CNN, é adicionar mais uma camada de incerteza a um cenário que já é desafiador. Recuperação judicial no agro: os números de 2025 e 2026 Os pedidos de recuperação judicial no agronegócio cresceram de forma expressiva nos últimos meses, sinalizando a pressão financeira sobre o setor. Esses números preocupam porque aumentam a percepção de risco dos credores e podem retroalimentar o encarecimento do crédito. O setor acumulou 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, alta de 56,4%, e outros 474 casos no primeiro trimestre de 2026, avanço de 21,9% em um ano, segundo a Serasa Experian. Período Pedidos de RJ no agro Variação 2025 (ano completo) 1.990 +56,4% 1º trimestre de 2026 474 +21,9% vs. mesmo período anterior Esse crescimento reforça o alerta de que o setor vive um momento de estresse financeiro. Para credores, o acompanhamento desses dados é essencial na hora de dimensionar o risco das carteiras ligadas ao agro. O tempo de recuperação como fator econômico Para quem empresta dinheiro, o tempo necessário para recuperar uma dívida é um fator econômico tão importante quanto o valor em si. Uma dívida recuperada rapidamente vale mais do que o mesmo montante em disputa por anos. Esse cálculo está no centro da discussão sobre risco jurídico. O Brasil tem um dos maiores estoques de processos judiciais do mundo. Segundo o CNJ, o Judiciário encerrou 2025 com 75,5 milhões de processos em tramitação. No mesmo ano, foram registrados 40,9 milhões de novos casos, o maior volume da série histórica. Embora 45,2 milhões de processos tenham sido baixados em 2025, a taxa de congestionamento ficou em 62,6%. Isso significa que, para cada 10 processos em tramitação, apenas cerca de 4 são resolvidos dentro do ano. Para um credor do agro, essa lentidão entra diretamente na conta do custo do financiamento. O que muda na prática para credores e produtores O impacto do risco jurídico sobre o crédito se desdobra em três frentes concretas: custo, acesso e garantias. Credores passam a cobrar mais, oferecer menos e exigir maior proteção para cada operação. Produtores, por sua vez, enfrentam condições mais restritivas independentemente do próprio histórico. Para credores e bancos, as consequências incluem: Elevação das taxas de juros para compensar a incerteza na recuperação Exigência de garantias mais robustas (alienação fiduciária, hipoteca, penhor de safra) Redução dos limites de crédito por tomador Maior seletividade na concessão de financiamentos Para produtores rurais, o cenário se traduz em: Custo financeiro maior para financiar safras, máquinas e terras Dificuldade de acesso ao crédito, especialmente para médios produtores Necessidade de apresentar patrimônio mais detalhado nas operações Risco de não conseguir renovar financiamentos em condições viáveis Como a investigação patrimonial reduz o risco de crédito A investigação patrimonial reduz o risco de crédito porque permite ao credor conhecer a real capacidade de pagamento do devedor antes e depois da concessão do financiamento. Quanto mais informação sobre o patrimônio e os vínculos de um tomador, mais precisa é a precificação do risco. A LEME atua justamente na etapa de investigação e recuperação de ativos. Segundo a empresa, são realizadas cerca de 20 mil buscas patrimoniais por mês e, ao longo de aproximadamente dez anos, foram identificados mais de R$ 400 bilhões em bens imóveis. Três etapas são essenciais nesse processo: Localização de bens: identificar imóveis, veículos, participações societárias e outros ativos vinculados ao devedor Mapeamento de vínculos: entender relações entre pessoas e empresas que podem indicar patrimônio indireto